Tom nº1
O sol apareceu e Tom acabou acordando. O calor era grande na sala, não havia ventilador ligado nem nada. Além do mais, não estava se sentindo tão bem, mas isso era meio óbvio: beber meia garrafa de absinto sozinho não faz com que a pessoa se sinta muito no day after. Levantou-se quase que pulando e se dirigiu para a geladeira, onde alguns copos de água de coco industrializava se encontravam. Ele tinha aprendido com a vida que esse era o melhor remédio para ressaca. Se sobrasse espaço no estômago e no espírito, alguma comida cairia bem.
Tom não gostava de acordar cedo. Para ele, o mundo deveria começar a funcionar a partir das 10h e ele próprio quando desse meio dia. Só acordava antes desse horário se acontecesse duas coisas: algo que só pudesse ser resolvido de manhã ou quando bebia, pois sempre acordava com sede e sentia dificuldades em dormir. Como já estava acostumado com isso, foi para dar uma caminhada pela rua, pois sabia que o sol, o vento e o exercício físico sempre o ajudavam a se recuperar das sequelas da noite anterior. Chegou até a padaria que ficava um pouco mais longe do que ele gostaria, mas que tinha o melhor pão da vizinhança e isso já era um forte argumento. Lá mesmo tomou café da manhã. Sentia que quanto mais comia, mais vontade de comer tinha. Sabia que isso ia passar, era só ter calma.
Em sua cabeça sabia que hoje haveria mais um evento a comparecer sem querer tanto: o encontro dos seus colegas dos tempos de escola. Ele não achava que seria tão proveitoso para ele, pois provavelmente cada um ficaria contando de seus feitos profissionais e pessoais, acabando que, chegando na hora de Tom falar, não haveria mais nada tão interessante a se dizer. Quem gostaria de saber sobre a vida de um consultor de internet e comportamentos? Afinal, ele não tinha um palácio a beira-mar nem um carro de cem mil reais. O mais perto disso que ele chegava era morar num apartamento a beira-bar e um carro que cumpria com a sua função principal: transportar Tom.
1.2
Eram onze da manhã de um domingo e chegou no local marcado. Era longe de casa, porém era uma granja bastante confortável no campo. O vento era forte e isso ajudava a receptividade do local. Como sempre, Tom tinha sido um dos primeiros a chegar. Era uma das manias dele: era pontual, ao contrário de praticamente quase todos que conhecia. Apesar disso ser considerado pela maioria como bom, nem sempre era a melhor coisa a se fazer. Muitas vezes gerava momentos e conversas que refletiam a falta de intimidade entre ele e a pessoa com a qual estava conversando.
Isso aconteceria mais uma vez hoje e ele sabia, mas não se sentiria confortável em chegar atrasado. O dono do local não tinha sido um amigo tão próximo. Enquanto Tom preferia andar com um grupo pequeno de amigos bastante próximos e conversar sobre música e assuntos do cotidiano, Carlos, o Cal, era do grupo dos mais abastados. Desde antes de poder oficialmente dirigir, Cal já tinha seu meio de locomoção próprio e por causa disso era bastante popular. Para Tom, popularidade não significava muita coisa. Ao mesmo tempo em que via pessoas fúteis sendo tidas como as mais conhecidas e cultuadas do colégio, observava que havia algumas com certa bagagem cultural, intelectual e comportamental que mereciam respeito.
No momento em que chegou na granja, foi recepcionado pelo caseiro de Cal, que o indicou aonde estacionar. Tom não sabia se era intencional, mas foi instruído a parar justamente ao lado de um conversível que valia o suficiente para comprar o apartamento de Tom e lhe dar um carro zero quilômetro. Ele procurou ignorar o fato e se direcionou a Cal. Viu ainda que alguns dos amigos mais próximos do host tinham chegado também.
A conversa inicial foi tranquila. “Sinta-se em casa, pegue um drinque e vá conversar com o pessoal”. Nesse momento, Tom procurou fazer as contas de quanto tempo fazia desde que ele havia trocado alguma palavra com os que já tavam na mesa. Ele havia concluído o colégio aos 16 anos e agora tinha 27. Provavelmente todos que se encontravam na mesa no máximo tinham mandado um feliz aniversário para ele pela internet, mas uma conversa cara a cara em que o que se fosse falado não fosse meros termos de cordialidade, não havia acontecido há mais de 10 anos.
Foi fácil reonhecer as pessoas pelos rostos, pois na era da tecnologia todos tinham acesso a pelo menos um trecho da vida pessoal de seus amigos. João Carlos, Gustavo, Raquel, Ana Maria e Thiago estavam bastante acomodados e conversando. Tom não tinha tido muito contato com eles no colégio e muito menos nos últimos anos. Antes de chegar na mesa, parou no meio do caminho para pegar uma garrafa de cerveja. Ao sentar-se, por mais inconfortável que estava, tentou ser sociável e começou a puxar papo. Muito do que foi falado todo mundo já sabia. Quem trabalhava aonde não era mais mistério na era da internet. As pessoas sentiam prazer em espalhar para o mundo o que estavam fazendo, principalmente as mais bem sucedidas.
Tom tentou puxar o máximo de conversas possível para fazer o tempo passar e seus amigos chegarem. Quando sentia que estavam chegando à futilidade habitual dos seus ex-colegas, procurava ir atrás de outra cerveja ou do banheiro. Foi um pouco mais de uma hora até o reforço chegar. Depois disso, viu que a tarde de domingo poderia até ser proveitosa, pois estava junto a alguns de seus melhores amigos que o tempo infelizmente os tinha separado.
Se juntou à mesa de Rafael, Victor, Alice e Fernanda. Sentiu-se à vontade. Rafael e Victor haviam sido seus parceiros quase inseparáveis. Alice era sua quase-irmã em quem ele confiava toda sua vida, segredos e pensamentos. Fernanda foi por vários anos sua paixão secreta, mas no decorrer dos anos nada acabou acontecendo. Para a sorte de Tom. Alice formou-se em medicina e era uma neurocirurgiã muito bem sucedida. Victor e Rafael abriram uma empresa de distribuição de bebidas, o que aliava a disposição para festa dos dois com o talento que tinham para logística e finanças. Todos eram bem sucedidos, menos Fernanda. Ela era a trouble child do grupo. Fez curso de publicidade por um ano, mas descobriu que não era o que queria. Achava que precisava de mais liberdade artística e foi para o curso de Design. Se sentiu mais à vontade, mas não havia se encontrado totalmente. Chegou à conclusão de que queria ganhar a vida sendo artista. Gostava de pintar e de escrever poesias, o que no final resultava em algumas exposições de arte e livros de poesia ilustrados. Tom se indagava o quanto ela realmente conseguia com isso, pois não era famosa e não tinha muitos contatos na high society. Viver de arte não era uma coisa muito legal e ele sabia disso.
Imaginava o que poderia ter acontecido se tivessem tido algum relacionamento, mas havia sido somente imaginário. Tom nunca havia contado isso para ninguém, nem para Alice em seus maiores momentos de sinceridade. Por mais transparentes que tentassem ser um com o outro, ambos sabiam que havia alguns segredos que não eram passíveis de serem repassados para outra pessoa. Sabiam e se respeitavam.
Alice, por sinal, era a que mais mantinha contato com Tom. Eles se encontravam pelo menos uma vez por semana na Ovelha Negra, pois ela adorava o chopp de lá e eles sempre tinham algo para conversar. O comentário principal era de que ela poderia ser cardiologista, pois sempre cuidava dos problemas do coração dele. Era aquela palavra de conforto que o ajudava a se recuperar de alguns baques que a vida lhe propiciou. Infelizmente, ela estava viajando quando Tom foi largado por Marina.
Agora, mais do que nunca, ele precisava de um ombro amigo. Combinaram de ir juntos para a Ovelha Negra conversar.
09/07/2010 às 16:25
Moflis, tô acompanhando!
09/02/2011 às 19:48
[...] leu Tom nº 0, nº 1 e nº [...]
23/02/2011 às 12:37
[...] leu Tom nº 0, nº 1, nº 2 e o [...]