Tom nº3
O sono veio fácil, mas o problema foram os sonhos. A tempestade de pensamentos que tinham ocupado a cabeça de Tom esses dias ainda não tinha se dissipado. Porém, parecia que o tempo ia melhorar. Ele viu que podia dar a volta por cima e recuperar o bom humor e o prazer pela vida.
Tom acordou e, instintivamente, foi olhar o seu computador. As pessoas achavam estranho quando ele contava desse hábito, mas era algo tão comum e óbvio para ele: lá tem as horas, as notícias e tudo que lhe interessava ao acordar. Viu que eram quase 10 horas da manhã, o seu horário comum de acordar. Tomou banho, escovou os dentes, ligou o som e começou a trabalhar. Ele ignorava o café da manhã, pois não gostava muito de pão, ovo e essas coisas que se comem no desjejum. Por isso, preferia acordar mais tarde e só se alimentar entre as 12 e as 13 horas.
Ele raramente sentia que seu trabalho era entendiante, afinal era o que ele gostava de fazer, mas, excepcionalmente, não estava nem um pouco a fim de fazer uma análise sobre a eficiência da campanha publicitária da marca X de bebidas. Sua cabeça estava em outro mundo. Tom queria voltar à Ovelha Negra e conhecer aquelas meninas que se divertiam tanto sem se preocupar com os problemas da vida. Talvez elas soubessem a solução para uma vida mais feliz, talvez elas só estivessem expondo um lado da história. Tudo isso era um grande enigma para ele, mas que lhe dava muita vontade de decifrar.
Apesar de sua cabeça se revirando e estando bem mais a fim de pensar mais no fim do seu namoro, Tom era profissional. O que lhe fez ter uma clientela fiel foi sua qualidade. O que lhe fez não ganhar dinheiro foi a sua falta de capacidade em saber como ganhar dinheiro com seu trabalho. Fazia algo que gostava e executava com maestria, mas não sabia a melhor forma de ganhar dinheiro com isso.
Ele sabia que não tinha muito para onde correr, tinha que trabalhar e focar sua cabeça no seu ganha-pão. Continuou fazendo suas pesquisas pela internet e anotando resultados de várias ações publicitárias que foram iniciadas há pouco tempo, mas que necessitavam de resultados, seja para impressionar os chefes, seja porque as ações realmente necessitavam ser mensuradas com tanta velocidade. Não importava para ele, já tinha virado rotina, era só coletar as informações e manter relatórios.
Certo momento, recebeu uma mensagem de Roberta, uma analista de marketing de uma das empresas para a qual Tom fazia seus freelas. Era do jeito que o agradava e que ele mesmo achava que merecia, pois também tinha seus defeitos. Do mesmo jeito que amava música, era quase uma extremista xiita em relação a gêneros musicais. Pouca coisa era pura para ela. Adorava livros, odiava escritores muito mainstream, como gostava de chamá-los. Se o blues, o rock e a música clássica eram os deuses, a música eletrônica e o pop comercial vinham do inferno. Se Dostoiévsky, Fante e Bukowsky eram os reis, J.K. Rowling, Dan Brown e Stephenie Meyer eram aqueles que tentavam destruir o império do conhecimento e do bom senso. Ao mesmo tempo em que seu corpo e sua face transmitiam uma aura gentil e suave, sua personalidade muitas vezes imponente não agradavam a Tom. Ele odiava extremismos.
Quando se conheceram, há quase um ano, a personalidade retraída e mistériosa do analista de mídias sociais quase eremita a atraiu por ser bastante intrigante. Infelizmente, para ela, ele não a deu muita atenção, pois estava num relacionamento com alguém de quem gostava muito. Infelizmente, para ele, Roberta gostava de atingir seus objetivos e demorou para desistir de falar com Tom. Só parou mesmo quando entrou em um relacionamento conturbado com seu ex-chefe, que a tinha cortejado desde que era estagiária. Os meses de insistência fizeram com que Tom pudesse entender a personalidade agitada e imponente dela, mas não era o que ele buscava no momento. Queria paz e futuro com sua namorada.
Hoje, Tom estava solteiro. Há pouco tempo, verdade, mas solteiro. A mensagem que estava no seu smartphone era provocante, mas não podia atender tão urgentemente o chamado, pois tinha que finalizar um relatório justamente para a empresa de Roberta. Ela queria marcar um café com ele, retomar as conversas que tinham parado há vários meses. Agora, os dois estavam solteiros. Tom tinha visto no Facebook dela. A vida social agora tinha seu próprio outdoor. Se chamava rede social, o lugar onde você exibe o que quer, mas muitas vezes não percebe quando passou do limite entre o pessoal e o privado, que deveria ser reservado para o mínimo de pessoas possível. Era a sociedade do exagero, da fama e dos holofotes. E certa parte desta história era o trabalho de Tom, o que o levava sempre a pensar quais motivos faziam as pessoas se expor tanto. Respondeu a ela dizendo hoje não dava, quem sabe amanhã?
Continuou trabalhando e, ansioso, pensava em qual seria a resposta dela. De vez em quando só se tem uma chance.
23/02/2011 às 12:37
[...] [Já leu Tom nº 0, nº 1, nº 2 e o nº3?] [...]