A indústria fonográfica tem tendências suicidas

Eu estava escrevendo um texto sobre a sociedade do espetáculo, mas ele acabou saindo um pouco da intenção original e virou isso.

Algo que me incomoda bastante hoje em dia é o que ocorre no mundo da música. Eu, apaixonado confesso por música, fico enojado quando vejo o quão retrógrada e bizarra é a indústria fonográfica. As gravadoras estão indo à falência porque juram que o modelo que tinham para fazer música era perfeito e duraria para sempre. Não previram nem acompanharam a onda da internet e do acesso global à informação, já que hoje em dia qualquer pessoa pode ouvir tanto uma música ‘demo’ gravada no computador de um adolescente de 15 anos habitante da Madagascar quanto ouvir o cd mais recente do artista pop mais famoso. Isso tudo de graça, bem mais rápido e cômodo do que ir a uma loja comprar.

[ Só um parágrafo explicativo: eu ainda compro cds. Acredito que, além do trabalho dos músicos, há todo o artwork, além de ter a sensação de que estamos ajudando um artista que merece. ]

Mas enquanto o acesso gratuito, ilegal ou não, foi popularizando-se, essas malditas associações, sejam elas a RIAA americana, APCM brasileira, etc. preferiram, em vez de readaptar o modelo de negócios arcaico para um novo esquema que entendesse como a informação circula hoje, preferiram atacar aqueles que foram classificados como ‘cibercriminosos’ por estarem disponibilizando cds, apresentações e filmes que nunca chegariam às nossas mãos de outra maneira. Não há como depender de lojas como Submarino, Lojas Americanas, Livraria Cultura, Saraiva, etc. pra achar raridades como, por exemplo, o álbum Nascimento da banda Perfume Azul do Sol, já que nenhuma dessas lojas jamais terá, nem por encomenda. Esse é um lado positivo do livre acesso à informação que vivenciamos hoje.

Em vez de planejarem como gerar receita dando acesso às pessoas a esses arquivos, esses executivos e advogados fracassados vão brincar de gato e rato com os internautas, principalmente os webmasters, mas parecem não se tocar que a quantidade de sites servindo como ‘espelhos’, que só fazem propagar mais ainda mais a informação, crescem exponencialmente, de um jeito que nunca vão conseguir parar isso.

Os mais espertos já começaram a fazer com que isso gerasse renda, mas não foram gravadora. Foram as próprias bandas, que viram que não daria certo ficar nesse modelo ultrapassado e sem futuro. Há várias bandas, principalmente as não-tão-famosas-assim, que disponibilizam seus álbuns na internet e, em vez de perderem dinheiro com isso, ganham uma grande leva de fãs que, tendo a oportunidade, comprarão o cd em sua forma física e irão aos shows, sem contar com o dinheiro gasto em merchandising. Há também vários sites para disponibilizar o conteúdo gratuitamente e eles estão longe de falir justamente porque souberam o que fazer para monetizar o serviço sem afastar as pessoas. Ou vocês acham que o MySpace, PureVolume, etc. estão perto de falir? Acho que não, hein =P

No final das coisas, eu acho que toda banda deveria disponibilizar seu material online, porque o hábito que se tem atualmente é bastante simples: primeiro vemos e experimentamos o produto para depois comprarmos. Tem que acontecer o ‘test drive’ antes! Quem quiser, hoje em dia, poderá sempre conferir um álbum antes de comprá-lo e isso é ótimo, porque gastar dinheiro às cegas é horrível. É lógico que há a necessidade de, além das gravadoras remodelarem seus modelos de gestão, reeducar as pessoas, já que, obviamente, não são todos que baixam para depois comprar. Dá pra dizer que 95% das pessoas baixa e não compra, o que não é o mais certo a se fazer por uma banda da qual você gosta e certamente irá a um show que houver em sua cidade.

Esse post foi menos elucubração e mais desabafo. Acho que foi bastante direto e ele remete principalmente à APCM, que recentemente fechou aquela comunidade ‘Discografias’ do orkut e à justiça sueca, que acabou por condenar os criadores do The Pirate Bay, ainda que o julgamento não tenha acabado. Sou totalmente contra a comercialização de mídia ilegal, mas sou a favor da disponibilização desse conteúdo.

Espero que um dia sigam o exemplo de empresas como o Google, em que a maioria de seus serviços é grátis e mesmo assim estão aí como uma das maiores empresas do planeta, e parem de caçar os seus clientes em potencial e comecem a tentar cativá-los de alguma maneira que isso gere renda. Aqui fica meu total desprezo pelo jeito como as associações fonográficas agem atualmente: espero que todas vão à falência, viva os selos independentes!

Ugo.

Transatlantic – Live in America [é de chorar esse cd, um dia eu vejo um show deles.]