Do arroz piemontês à picanha nobre: a hierarquia nos rodízios de carne

Hoje, enquanto almoçava no Sal e Brasa com meu pai, minha madrasta e um amigo nosso, surgiu na conversa uma tentativa de hierarquizar os garçons pela comida que servem. É fato de que há sempre opções mais e menos populares, e eu não tenho a mínima informação se o garçom escolhe por conta própria ou por sua experiência na casa. Decidi teorizar a partir da hipótese de que eles utilizam um ranking de acordo com seu tempo trabalhando e sua habilidade na hora de servir.

O prato mais rejeitado, pelo menos na  muitas vezes em que fui a rodízios de carne em vários restaurantes diferentes, é o arroz piemontês [pode chamar de piamontês, à piamontesa, à piemontesa, pode chamar até de arroz do piemonte se quiser. Não sei por que diabos a galera dessa região longínqua da Itália decidiu fazer uma invenção culinária tão macabra. ]. Quase ninguém pede essa gororoba que dá até pra brincar de guerra de bolinhas de arroz piemontês. Além de ser pouquíssimo famoso, ele é facílimo de servir, afinal qual o mistério em pegar a colher, enfiar naquele monte grudento e jogar no prato do cliente?

A gente foi chegando à conclusão que, após um certo treinamento com o arroz, a pessoa evolui para batata frita/banana frita/cebola frita. É totalmente o inverso no quesito popularidade, já que muita gente sempre pede um pouquinho de pelo menos uma das opções. Enquanto isso, pra servir continua bastante fácil e sem mistérios. Outra categoria que pode ser do mesmo ranking é a farofa de ovos, que tampouco requer muito esforço físico/mental pra fazê-la chegar no prato alheio. São dois pratos bastante simples e que estão no gosto do povo, ajudando o novo garçom a ir se adaptando a um ritmo mais puxado de trabalho, diferente do arroz piemontês.

Depois, talvez já seja a hora de chegar em alguma coisa feita de carne mesmo, pois até agora o cara só tava trabalhando com coisas que o PETA não faria questão de reclamar, afinal não são inocentes animais que estavam sendo abatidos pra nossa gula. Acho que o melhor jeito de se começar a trabalhar com corte e tudo mais é pelo coração de galinha e pelas linguiças [sem trema, sabe por que? ‘não trema em cima da linguiça’, como dizem os novos reformistas]. Talvez o a coxinha de faisão também seja recomendada, já que, apesar de não ser muito popular, é uma das coisas mais fáceis de serem servidas. É possível ainda um pouco mais de aprofundamento, abrindo dois nichos: o garçom que não obteve muito sucesso, mas que as leis trabalhistas brasileiras fazem com que não seja lucrativo demitir o pobre coitado, e o garçom que se desempenhou melhor, merecendo ‘evoluir’ no seu trabalho.

O primeiro, que sabe-se-lá-por que não conseguiu fazer o seu labor com louvor, seria encaminhado para a coxinha de faisão, depois podendo ser passada a ele a missão de servir algumas carnes mais complicadas, como a pesada peça de fraldinha, costelas, cupim, etc. Depois vou falar sobre o fim de carreira de um funcionário mediano.

Aquele que teve uma atuação melhor deve, consequentemente, ter um serviço melhor. Então para ele, após a recém promoção, poderia ser atribuída a função de servir pratos que ainda não são tão populares, mas que são de mediano manejo e que não pesem tanto como um gigante pedaço de maminha. Estariam incluídos: picanha de porco, picanha com alho, alcatra com queijo, javali, chorizo argentino, etc. Com um pouquinho de experiência a mais, creio que o nosso amigo garçom já estaria apto para servir a tão desejada picanha bovina, que é almejada praticamente por todos que vão a um rodízio de carne. Pouco mais se tem a subir: chegando ao topo da sua carreira trabalhando com sistemas de rodízio, finalmente alcança-se a picanha nobre, que no meu hipotético texto seria o ápice, pois além de ser picanha, é a parte mais valorosa e saborosa [hmmm, tá me deixando com água na boca].

Depois que ambos os dois esteriótipos hipotéticos de funcionários de rodízio de carne chegam ao seu clímax laboral, acho que é hora de trabalhos menos tensos. O que nunca conseguiu ser um grande garçom pode ter como nova [e, possivelmente, última] função carregar o carrinho de sobremesas, já que ele nunca conseguiu nenhum feito, sair andando pra lá e pra cá cheio de coisas deliciosas não deve ser muito difícil também. O outro, entretanto, teria como atribuição o carrinho de surubim e outros que sejam empurrados, já que é menos esforço ficar empurrando carrinho do que segurando peças de carne de vários quilos. Por fim, quem sabe um lendário garçom não vire um [assistente de] gerente, mas aí vai depender de mais coisas além de ‘apenas’ [já que eu mesmo não conseguiria servir nem a batata frita direito] servir carne.

Esse post deu uma água na boca massa, ainda bem que jantei há pouco tempo. Mesmo tendo estado há pouco menos de 10 horas em um rodízio de carne, não sou ninja de lembrar cada corte de carne, cada tipo de prato, etc. Tampouco o texto tem alguma finalidade científica. É só um realzinho de insônia e uma idéia [bastante maluca, por sinal] na cabeça.

Ugo.

Manu Chao – Clandestino [destaque pra La Despedida]